quinta-feira, 14 de maio de 2015

Emir Sader

Acordei com essa coisa de "esquerda" e "direita" na cabeça, hoje. As pessoas (desinformadas) teimam em dividir os brasileiros entre petistas e "tucanos" (mais certo seria peesedebistas?). Já há um erro nessa afirmação, pois temos mais de 30 partidos políticos em nosso país, e há muitos brasileiros que prefere não votar em nenhum...


A minha referência sobre "direita" e "esquerda" no Brasil é o Emir Sader, cujo livro eu li ainda na Faculdade, a pedido de algum professor (não lembro qual). Como não possuo mais esse livro, resolvi buscar algo sobre o assunto, escrito por ele. E achei esse artigo aqui:

http://www.cartamaior.com.br/?/Blog/Blog-do-Emir/Ser-de-esquerda-na-era-neoliberal/2/29279

A questão, levantada por ele, é a seguinte: se o Brasil é de "direita", porque o Aécio ou o Serra não se elegeram? Se é de "esquerda", como é que nos estados como São Paulo e Paraná, o PSDB é que ganhou? A explicação mais "fácil" é a de que a "direita" tem mais força nos estados e menos no país...Daí alguns falarem em "separar" o "pais do PSDB" do "país do PT"...Incrível! As pessoas acham soluções rápidas para seus dilemas, não é mesmo?


Sobre o mapa acima, gostaria de saber onde irão colocar os partidários dos outros 30 partidos...

Mas enfim, continuando:

O anti-capitalismo, que sempre caracterizou a esquerda, ao longo o tempo, foi assumindo formas distintas, conforme o próprio capitalismo foi se transformando, de um modelo a outro. A esquerda foi anti-fascista nos anos 1920 e 1930, foi adepta do Estado de bem-estar social e do nacionalismo nas décadas do segundo pós-guerra, foi democrática nos países de ditadura militar. Assim como a direita foi mudando sua roupagem, na mesma medida: foi fascista, foi liberal, foi adepta da Doutrina de Segurança Nacional, conforme as configurações históricas que teve que enfrentar.

Emir Sader demonstra uma verdade clara e que muitos talvez não percebam: tanto a esquerda como a direita, foram se adaptando às "configurações históricas", ou seja, não foram sempre iguais, mesmo porque os anseios de cada década, de cada geração, não são os mesmos. E também há de se lembrar que mulheres, negros, jovens, LGBT, foram tendo papéis diferentes, em cada época. Isto é importante, pois não podemos dizer que um movimento de esquerda atual é formado pelos mesmos personagens de um movimento de esquerda da década de 30, e nem que almejam as mesmas coisas. Assim c omo não se pode falar o mesmo sobre os partidários de direita...Abaixo, cena da Greve de 1917:


Na era neoliberal, os eixos centrais dos debates e das polarizações se alteraram significativamente. A direita impôs seu modelo liberal renascido, marcado pela centralidade do mercado, do livre comercio, da precarização das relações de trabalho, do capital financeiro como hegemônico, do consumidor. Ao mesmo tempo da desqualificação das funções reguladores do Estado, das politicas redistributivas, da politica, dos partidos, dos direitos da cidadania.

O Liberalismo de Adam Smith fez sucesso no Século XIX. Mas a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914/1918) acabou com esse modelo: de "herói", o Liberalismo passou a ser o "vilão", e as nações seguiram em outras direções, no Século XX: os EUA foram para o Modelo Keynesiano, que preconizava a participação do Estado na sociedade, e Roosevelt criou o Welfare State, ou Estado de Bem-Estar Social. Já as nações europeias foram para os regimes totalitários (Nazismo, Fascismo, Franquismo, SalazarismoStalinismo, esse último de esquerda), que acabaram chegando à América do Sul, via Getulismo e Peronismo. Somente nos Anos 80, é que o Liberalismo foi "ressuscitado", via Thatcher (Reino Unido) e Reagan (EUA), com o nome de Neoliberalismo, e depois, o modelo "migrou" para o Brasil. Ou seja: o Brasil sempre segue as tendências nascidas na Europa e nos EUA, seja de direita ou de esquerda...

É nesse marco que a América Latina passou, de vítima privilegiada do neoliberalismo, à única região do mundo com governos e políticas posneoliberais, com governos que se propõem concretamente a superação do neoliberalismo. A prioridade das políticas sociais ao invés da ênfase central nos ajustes fiscais. O resgate do Estado como indutor do crescimento econômico e garantia dos direitos sociais no lugar do Estado mínimo e da centralidade do mercado. O privilégio dos projetos de integração regional e do intercâmbio Sul-Sul e não dos Tratados de Livre Comércio com os Estados Unidos. Essas contraposição define os campos da esquerda e da direita realmente existentes na era neoliberal.

Quando Emir Sader fala em "políticas sociais" é possível percebermos como o Brasil foi sendo conduzido, até aqui: mesmo os governos ditos "neoliberais" procuraram manter as políticas sociais, como a distribuição do leite, por exemplo. Mas, no momento em que tentaram fazer "ajustes fiscais", em detrimento das "políticas sociais", ou seja, tentaram ser realmente "neoliberais" no sentido da palavra, arrumaram encrenca com a população. E isso não foi exclusividade do PSDB, pois o PT também tem feito coisas parecidas, no Governo Federal. Há quem chame a Dilma de "tucana"...


Na era neoliberal – modelo imposto sobre um brutal retrocesso na correlação de forças mundial e nacional – a linha divisória vem desse modelo, dividindo as forças fundamentais entre neoliberais e antineoliberais – conforme resistam a governos neoliberais – e posneoliberais, quando se empenham na sua superação. 

Sader é o anunciador da "era neoliberal", e deixa claro que há os "anti" e os "pós", no sentido do combate ou da superação. Isso me faz lembrar que há muitos brasileiros que se dizem de "esquerda" mas tomam atitudes de "direita", e o inverso também é verdadeiro. Essa imagem mostra bem, essa ideia:


Em vários períodos históricos houve uma esquerda moderada e uma esquerda radical. A social democracia passou a representar a primeira, os comunistas e forças da extrema esquerda, a segunda. No período histórico atual há, na América Latina, governos posneoiberais moderados – como os do Brasil, da Argentina, do Uruguai – e radicais – como os da Venezuela, da Bolívia, do Equador, sem mencionar o de Cuba. Os primeiros romperam com eixos fundamentais do neoliberalismo – com os enunciados: centralidade do mercado, Estado mínimo, privilégio do ajuste fiscal e dos TLCs com os EUA – avançam na sua superação – centralidade das políticas sociais, do papel do Estado, dos processos de integração regional.  Os segundos, além de antineoliberais, se propõem a ser anticapitalistas, e deram passos nessa direção. 

Ser totalmente anticapitalista e adepto da "revolução" não é a minha ideia particular de desenvolvimento. Mas também sou contrário à ideia de que se deva "cortar despesas" junto à população, enquanto vejo os Três Poderes recebendo aumentos e privilégios, de forma desordenada, e o aumento progressivo da "máquina". Outro dia, me falaram o seguinte: "em cidades pequenas, as prefeituras empregaram quase toda a intelectualidade capacitada, e essa se calou, com medo de perder os cargos comissionados". Parece um tipo de 'coronelismo moderno", onde o povo "aceita" certas situações, e quem reclama ou é contratado ou sufocado. Até os meios de comunicação, muitas vezes, se calam ou se posicionam, conforme o tamanho da verba governamental que recebem...


Ser de esquerda hoje é lutar contra a modalidade assumida pelo capitalismo no período histórico contemporâneo, é ser antineoliberal, em qualquer das suas modalidades. A moderação ou a radicalidade estão nas formas de articulação, ou não, entre o antineoliberalismo e o anticapitalismo. Seria demasiado pedir que pesquisas e editoriais imersos no universo neoliberal como seu habitat natural, sem a perspectiva histórica que permite entender o neoliberalismo e o capitalismo como fenômenos históricos precisos e a história como produto de correlações de forças cambiantes , pudessem captar o sentido de ser de esquerda e de direita hoje. São vítimas de clichês que eles mesmos criaram e que os aprisionam.
Enquanto isso, a América Latina, sua direita e suas esquerdas, se enfrentam nas condições concretas e especificas do mundo contemporâneo. 


Entre os três maiores partidos: PT, PSDB e PMDB, hoje, creio que nenhum pode se dizer mais de esquerda, no sentido que Sader afirma, pois até o PT tem tomado medidas que poderiam ser consideradas de direita. Tanto que os mais radicais saíram do PT e criaram outros partidos mais de esquerda, como PSOL. Mas, se formos analisar a ideologia neoliberal, o PSDB também tem evitado (até agora) seguir a cartilha radical, e quando tentou, arrumou encrenca. Ou seja: não temos radicalismos fascistas, ditatoriais e nem revolucionários de ordem socialista e comunista, por aqui. Usamos essas palavras porque aprendemos a usá-las, mas na prática, elas não existem, por essas bandas. E esperemos que assim continue, pois o Brasil deve ser o país do entendimento, e não da bipolarização, da união e não da divisão, e quem sabe descobrimos uma palavra nova para definir uma forma nova de fazer e viver os direitos e deveres dos cidadãos, cuja necessidade é cada vez mais visível.


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