sexta-feira, 26 de junho de 2015

Reflexões sobre o 27/6

Amanhã é mais um dia de reposição, nos colégios de todo o Paraná. Mas é um dia significativo, pois iremos repor o dia 29 de abril, um dos piores (se não o pior) dias que já tivemos nesse, e em muitos anos. Não sei se exagero, quando digo que foi o pior dia de minha carreira profissional. Explico: comecei a trabalhar quando ainda estava no Magistério, lecionando para vintes adultos. Eu tinha 15 anos, e o aluno mais novo tinha 17. Era o último do extinto Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), no qual ingressei pelo dinheiro, afinal de contas. Para um adolescente de 15 anos, a oportunidade de trabalho remunerado era o maior atrativo. Mas, após dez meses de curso, com os vinte adultos alfabetizados, me descobri professor: a realização de poder ajudar alguém, sem esforço, de forma prazerosa, fez de mim um homem desejoso de ter mais...Eram os idos de 1983, e minha vocação ainda não despertara por completo, mas eu iria abraçá-la, anos depois, em 1988, quando comecei a trabalhar com uma Primeira Série, na então Escola 31 de Março, em Ipanema. Não lembro mais quem eram os alunos dessa primeira turma, pois logo vieram outras e outras e hoje, mais de 20 anos depois, tenho ex-alunos aos montes, muitos com filhos adolescentes, e já quase virando avôs...
Eu, do meu lado, ainda me sinto jovem, no sentido de que acordo disposto, vou animado dar minha aula, e até acho graça da preguiça dos alunos ("estão perdendo para mim, em disposição", falo as vezes).
Mas, parece que minha História enquanto educador, estava incompleta: comecei a lecionar em 1988, ano fatídico, em que os professores foram agredidos pelos cavalos do Álvaro Dias. Me formei, fui Diretor, formei inúmeros alunos, fiz PDE, mas nunca tinha participado de greve. Ao meu ver, 1988 havia ensinado aos governadores que era melhor tratar bem a Educação, que ser inimigos dela. Por isso, em todo 30 de Agosto, sentavam-se o Sindicato e o Governo e, juntos, viam o que era possível para aquele ano, e o que se teria que deixar para mais adiante. Virou rotina, esses 30 de Agosto, e minha geração se acomodou a isso.
Então, foi uma surpresa quando, em 2014, chegamos a fazer greve, e mais ainda, quando tivemos que repeti-la, em 2015, e não uma, mas duas vezes. Digo surpresa, porque entendemos que chegamos a esse ponto porque o diálogo acabara, e não porque o Presidente da APP ou quem quer que seja, fosse desse ou daquele Partido. E à greve, foram todos os professores: de esquerda, direita, de centro, apartidários...É balela querer partidarizar a greve, mesmo porque não fizemos greve antes, mas não somos tão inocentes ou alienados como queiram fazer parecer.
Enfim, fizemos a greve, num período democrático, numa situação de direito, em que trabalhadores de toda e qualquer classe podem fazer. Mas nem motoristas e cobradores, lixeiros, enfermeiras, médicos ou qualquer categoria, passaram pelo que passamos: praticamente duas horas de bombardeios com gás lacrimogêneo, spray de pimenta, balas de borracha, atiradas no abdômen, tórax e rosto, com crianças tendo que ser socorridas numa creche, a Prefeitura ter que ser evacuada, e com mais de 200 pessoas feridas, apenas porque queriam reivindicar seus direitos, eu nunca tinha visto e nunca tinha imaginado, nem em meus pesadelos mais insanos. Lembro que brincávamos sobre ter uma rota de fuga, caso houvessem problemas, mas não acreditávamos que isso pudesse ocorrer...mas ocorreu...Amanhã, 27 de junho, teremos que repor esse dia, mesmo com sequelas morais e físicas, mesmo nos sentindo revoltados e traumatizados (muitas professoras ainda passam mal, desde aquela época), tendo sido brutalizados de forma pior que em 1988, pior que bandidos, e ainda sendo acusados de "demonizar o Governo". Se somos os representantes legais, de direito, da educação no Estado do Paraná, e fomos brutalizados dessa forma, o que dizer de nossos alunos, cidadãos em formação, futuros profissionais em suas respectivas áreas, quando tiverem e quiserem reivindicar seus direitos? O que farão? Como serão recebidos? Quem é o "demônio", para eles? Que tal os excelentíssimos governantes irem às escolas descobrir? Aqueles que foram racionais, humanos e sérios têm ido....E ninguém atirou nada neles...Por que outros não arriscam? Medo de água benta??????

Nenhum comentário:

Postar um comentário